Sobre Vidas Passadas: A Crítica da Bruxa

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 Buda, depois de passar por muitos estágios de iniciação e provações, recebe o conhecimento de suas vidas passadas: 


Sentado sob uma árvore e voltado para o leste, ele viu a natureza se iluminar com sua própria radiância até que Sujata, uma jovem devota, lhe ofereceu arroz em uma tigela de ouro; ao lançar o objeto vazio ao rio, este flutuou, sinalizando que seu triunfo estava próximo. Ele seguiu então por uma estrada divina de proporções monumentais, cercado pelas homenagens de serpentes, pássaros e divindades que celebravam sua jornada com perfumes e coros celestiais enquanto ele se dirigia à Árvore Bo para redimir o universo. Ao se posicionar no Ponto Imóvel sob a árvore, foi confrontado por Kama-Mara, o deus do amor e da morte, que surgiu montado em um elefante e liderando um exército colossal que cercava os confins do mundo. Embora as divindades protetoras tenham fugido, o Futuro Buda permaneceu imóvel diante das investidas violentas de Mara, que lançou furacões, chamas e armas cortantes contra ele, apenas para ver tais ameaças se transformarem em flores e ungüentos pelo poder das dez perfeições de Gautama. Nem mesmo a tentação das irmãs Desejo, Dissipação e Luxúria distraiu sua mente, e quando o deus contestou seu direito de ocupar aquele lugar sagrado, o Salvador tocou a terra com os dedos, convocando a deusa Terra como testemunha. O bramido ensurdecedor da Terra fez o elefante de Mara se ajoelhar e dispersou o exército inimigo, permitindo que, após essa vitória preliminar, o conquistador alcançasse o conhecimento de suas vidas passadas, a visão onisciente e a compreensão da causalidade, atingindo a iluminação perfeita ao romper da alvorada.

(O Herói de Mil Faces, página 38)


Ao final de sua jornada de iluminação, conquista o conhecimento que tantas pessoas anseiam, pela curiosidade ou ilusão, sem qualquer autoconhecimento prévio, psicológico ou espiritual. Você, que busca as histórias de suas vidas passadas, consegue responder a grande indagação de Absolem, a Lagarta de Alice no País das Maravilhas: Quem és tu? Quem és tu hoje? Há um discurso sedutor em olhar para a vida de outrem antes de conhecer a sua própria.


A crítica é necessária onde o egoísmo é exacerbado. Tarólogas e místicos que iludem consulentes para vender seus feitiços, “limpando karmas”, alimentando-se da vulnerabilidade alheia, da consulente que vive relacionamentos difíceis por “questões de vidas passadas” e então permanece em uma relação violenta, falida ou gasta o dinheiro que não pode para comprar feitiços numa venda casada.

Quantas “reencarnações de Cleópatra” encontramos na internet, falando abertamente sobre essa experiência ao ponto de virar meme - afinal, há dezenas delas. Há de se ter os pés no chão quanto à espiritualidade, pois com nossas ilusões e egoísmos, acreditamos no que queremos: aquilo que é mais fácil e belo, que alimenta o que for mais conveniente para a nossa narrativa egocêntrica, vitimista, etc & etc. “Orai e Vigiai”, observando nossos pensamentos, seus fluxos, o que e como os alimentamos, pois Deus e o Diabo vivem em nós. 

Estudar sobre reencarnação, karma, Samsara… serve como conduta, como parâmetro. Há de fazer o que é certo porque é certo e não pensando em melhorar a sua próxima vida. Fazer o correto para não reencarnar numa vida miserável é o mesmo que não pecar para ir para o céu ou continuar cometendo corrupções pois não está sendo “pego” pela legislação burlada. Logo, seguindo essa mentalidade, as pessoas que sofrem hoje são merecedoras dessas injustiças pois realizaram maus feitos em vidas passadas? 

Quando o Bhagavad Gita diz para oferecer suas ações à Krishna, não interpreto feito servidão como um escravo, mas sim sobre viver o amor. Quando Osíris julga seu coração mais leve que a pena de Maat, é sobre a justiça em vida. Lévinas (1980) sobre alteridade, onde a relação ética não depende de uma ação que exija uma consequência ou efeito posterior; ela é a unicidade e a subjetividade do outro. Verdadeira Vontade, todo homem e toda mulher é uma estrela.

Pessoalmente, em minha jornada de bruxa como identidade e filosofia de vida, obtive o conhecimento de duas encarnações passadas. O que mudou em minha vida? Nada. Auxilia a concretizar e corroborar com alguns conhecimentos pulverizados da mística e ocultismo, como o desapego da identidade Helena (Memento Mori, lembre-se que vais morrer), diluição do ego e compreensão de parte da manifestação, como “o que vem depois da morte”. Porém, não há alívio. A reencarnação não é atraente, assim como, particularmente, não reencarnar é pior: a ideia de deixar este mundo onde há pessoas em sofrimento que poderiam ser auxiliadas de alguma forma através do pouco conhecimento que aprendo ou realizando um benzimento, é terrível. Inspiro-me em Buda quando afirma que reencarnaria até que visse as costas do último homem alcançar o Nirvana. 


Referências:

LÉVINAS, E. (1980). Totalidade e Infinito 

CAMBELL, J. (1989). O Herói de Mil Faces

e um monte de baboseiras das vozes da minha cabeça. 




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