Quando leio Fernando, leio uma página, leio duas, e paro. É muito para sentir. Há muito para desmembrar. Quando ele diz: "Mas a minha tristeza é sossego, Porque é natural e justa, E é o que deve estar na alma, Quando já pensa que existe, E as mãos colhem flores sem ela dar por isso." lembro-me que vou morrer (memento mori) e estar aqui é uma ilusão que precisa ser relembrada constantemente. Reconheci, em suas palavras, Helena Blavatsky (Pessoa traduziu “A Voz do Silêncio” e foi uma experiência transformadora) sobre Voltar ao Colo do Pai: ser uno com o Todo. Não necessariamente morrer, mas sim, voltar ao Universo.

Todas as vezes que ensino sobre viver na matéria, conto a história do monge. O discípulo perguntava para o mestre como ele fazia para viver aqui, na terra, com as dores do ego, e manter-se iluminado. O mestre responde: Eu sei que a matéria é uma ilusão. Mas quando quero passar por uma porta, eu a abro, não passo reto e dou de cara nela.

Ilusão sim, mas ainda habitamos estes corpos.

Então, também escreveu: "Não tenho ambições nem desejos. Ser poeta não é uma ambição minha." e lembrei-me da Verdadeira Vontade, a vontade livre de ambição, de resultado. Eles trocavam cartas, sabia? Crowley e Pessoa.

E em toda sua profundidade mística, encerra acendendo um cigarro: "E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações, E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto." feito nós, bruxas, com as sensibilidades do viver, mas também, lembrando do prazer, finalizando um ciclo de questionamentos que será iniciado novamente, em breve.



 Quando dei por mim, lendo aquele conto (Um cálico extremis, de Hilda Hilst), percebi que falava de morte, de vida - afinal, não existe um sem o outro. A vida começa assim que você comunica, manifesta; pois, no princípio era o verbo & existir é comunicar. E quem não é ouvido? As mulheres, refugiados e as pessoas em situação de rua, esses, não-visíveis (invisíveis, não), o quanto existem? Eu os ouço?


Yeshua disse para falar para quem tem ouvidos, ou algo do tipo. Gosto disso. A fala (e a escrita) é sagrada, por que falaria para quem não quer ouvir? Para existir. Para quem eu existo? E isso importa? Existo porque existo, assim como Deus criou a matéria porque criou. Não há propósito. Falo porque tenho a dizer, tenho a dizer porque existo e você, pupila, ouve porque é capaz.


Falo, com a palavra dou o nome. Dou nome às coisas desde que nasci. Dou nome para medir, dou nome para entender. Quando eu nomeio, evoco. Dou voz. Domino. Palavra é feitiço. É por isso que as bruxas não dão seus nomes de nascimento. Tolas. Coitadas. Existe um nome mais poderoso, verdadeiro, antes dessa tua vida. Mas entendo. Batizados e seus novos nomes. Tem gente que tem um pra cada fé. No final, nada compreende. Nem sabe o porquê.


E morto, fala? O princípio era o verbo. Existir é respirar. OM. Morto não respira. Mas fala. Sonho com meus mortos frequentemente. Bisavô, bisavó, aqueles que nem conheço. Sou eu falando ou são eles que me falam? Será que não morreram? Não voltaram para o uno? Para o Colo do Pai? Estão esperando na fila da reencarnação? Não, nao esperam, porque o tempo é obra de mortal, de material. “Estou morto quando isso seria o inexprimível”, escreveu Hilda. Não existe esse negócio de morrer.


Você acha que vou conseguir morrer, Hilda? Ou desejarei voltar a “dar forma às aparências”, como escreveste? Não tenho grandes apegos, sabe, talvez, um senso de justiça. Aquilo que disse Sidarta. Vou ajudar os homens a entrarem no Nirvana até ver as costas do último homem. Algo assim. Será que vou aprender a morrer ou é só egoísmo? (respira, Pneuma)




Tudo que dá errado dá certo. Em um mês de espera para ritualizar na lua cheia, tomei um banho de cabeça com a magia das flores brancas (uma poção que a ideia inicial era para ser um perfume, o “deu errado” dando certo novamente), purificando os pensamentos, removendo os lamaçais das dores e tornando a mente transparente para receber a luz do divino: resultou em enxaqueca. Eu, que nunca tenho dores de cabeça, precisei cancelar meu ritual que aguardei tão ansiosamente.

Frustrei-me totalmente e fiquei indisposta para tudo. Mas então, os dias que se sucederam foram incríveis, a ponto de eu poder realizar meu ritual - mesmo tendo passado a lua cheia. É sempre assim. Enquanto realizava, aleatoriamente, a playlist tocava uma música que nunca ouvi,“Moon Ritual”, confirmando aquilo que já não era mais necessário dizer. A cada ritual que faço, o ensinamento: confia. Larga o perfeccionismo e a mania de controle. Tá tudo certo. Mas o que fazer quando sabemos disso, digo, racionalmente entendemos o problema e aquilo que os Deuses querem nos ensinar, porém é difícil de colocar esse aprendizado em prática?

Ritualizamos novamente. E em cada ritual, lembramos aquilo que é preciso ser relembrado. Desta vez, decidi, apesar de toda resistência, realizar um ritual solitário e estruturado (ainda está nascendo, no processo de criação) toda a lua cheia, para lembrar o que já sei, mas que sempre esqueço, afinal, temos na alma o pedaço do divino, porém somos revestidos deste “carro” chamado corpo. Nós, os condutores do carro, às vezes esquecemos disso, esquecemos do que somos/estamos (memento mori?).

A nível de curiosidade e inspiração, direi quais serão os feitos desses rituais lunáticos. Primeiro, o banho de cabeça com as flores brancas purificadoras. Depois de passar meses criando o perfume (que tornou-se banho mágico), descobri no Museu Egípcio que um perfume muito semelhante era oferecido ao Faraó e limpeza de estátuas dos Deuses Antigos. Esse mesmo perfume eu fiz para os Deuses e meus amuletos, adicionando plantas venenosas poderosas. Assim o ritual se sucede com a energização de amuletos, estátuas, joias, cristais e feitiços com esse perfume venenoso. Isso tudo é a purificação. Claro que neste momento já estou com o banimento feito e a casa limpa. 

Ofereço então um copo de água fresca aos mortos, dispondo fotos de meus ancestrais, ao final do ritual bebendo a água com suas bênçãos e recolhendo suas fotos. Acendo uma vela no caldeirão, com a estatueta de Seth. Sento-me próxima à chama e medito, toco tambor, canto… recebo e ofereço o que devo receber e oferecer depois de fazer as invocações e evocações. Interessante foi perceber que há necessidade também de realizar algo com O Gato, espírito guardião da Jornada da Bruxa, mas sei que é na próxima lua cheia que a inspiração virá.

Com carinho,

Hele

❤️




É importante que a bruxa mude seu altar. A natureza, muda.

Essa necessidade nasce, principalmente, para bruxas que ficam muito tempo em casa - como eu. Os elementos do altar são símbolos: eles carregam uma infinidade de significados para a bruxa e, como uma ponte, levam nossa mente (consciente ou inconsciente) para sua magia. Acontece que o nosso cérebro está sempre economizando energia. Com o tempo, “paramos de enxergar” o nosso altar, pois a familiaridade leva à falta de atenção.


As mudanças podem ser feitas através dos elementos das estações (os sabás), de novos símbolos que agregamos aos nossos estudos ou, simplesmente, trocando uma coisa ou outra de lugar.

Particularmente, sou uma grande tradicionalista (e caoista também, se for possível) no quesito decoração, símbolos, acessórios, roupas e etc.


Para minha bruxaria como filosofia de vida, as coisas não devem ser apenas coisas, mas sim, serem preenchidas de significados. Deve-se atribuir sentido, empoderando tanto a minha casa, a minha magia, quanto um simples colar de uso diário




Este é o primeiro texto do ano. Ele vem nascendo na minha mente confusa, misturando a vontade de conversar com vocês sobre a solidão de Éllen (Nosferatu, 2024) e a nossa solidão - a da bruxa. Porém, controversamente, sinto na minha solidão a necessidade do compartilhar. 


Quando eu era uma jovem estudante de ciências biológicas (descontinuei a faculdade e hoje, sou formada em administração), o professor de Educação Ambiental fez várias dinâmicas conosco, numa saída de campo. No fim do dia, sentamos em roda e conversamos sobre nossos insights. Uma pessoa, disse: “Felicidade boa é felicidade compartilhada.”


Esta fala, deu o sentido (quase como a manifestação de um símbolo) para muitas coisas que eu sempre senti em relação à magia. Em um dos primeiros insights, aos quatorze anos, percebi que o vazio que eu sentia era preenchido pela magia e pela espiritualidade. Desde então, quis compartilhar a espiritualidade com as pessoas, principalmente a bruxaria. “Felicidade boa é felicidade compartilhada”.


Porém, a minha caminhada é solitária. Quando eu era jovem, até acreditei (na realidade, fui iludida e ludibriada) que era coletiva, mas não. As pessoas passam pelo meu jardim, bebem da fonte e vão embora - e está tudo bem, é o dever da sacerdotisa. Mas sinto falta de ser essa pessoa também, a que tem uma fonte viva e palpável de onde beber. 


Quando penso em parar de jorrar (transmitir o conhecimento oculto), relembro a minha verdadeira vontade, e, quando aprendo, meu primeiro instinto de amor incondicional é a grande vontade de compartilhar, escrever, contar e ensinar. Mas aí, no meu desequilíbrio, na falta da fonte para beber - e me refiro a pessoas, não livros, espírito ou divindade - me vejo na solidão. Como a Éllen, desejando e ansiando a companhia, que atravesse os oceanos e compreenda as suas sombras.


Prece à Baba Yaga


Há um dilema na vida das curadoras, benzedeiras e bruxas. Eu aprendi a curar, mas não numa universidade. Ninguém ensinou-me os limites, o ético e moral daquilo que só eu vejo. A vida me ensinou a enxergar a dor alheia, mas até que ponto é certo disponibilizar minha cura para alguém?




Aquele sonho que tive com tal pessoa. A energia que enxerguei através de outra. O que o oráculo me mostrou. A decepção de dar a resposta, o aviso ou o conselho certeiro e ser ignorada - ou substituída pelas ilusões (um beijo para as cartomantes que se identificaram profundamente com essa parte).


Assisti um documentário e, na comunidade indígena demonstrada, não é o indivíduo que estuda e trabalha sua própria cura, mas sim o xamã. Ao entrar em contato com os espíritos, o xamã enxerga a dor da pessoa e então bane, limpa, cura. A chave virou (momento que soube que precisava escrever este texto e ele ficou latejando na minha cabeça - aproximadamente 4 dias - até estar aqui, agora). Muito parecido com o benzimento. Mas, quando curar alguém? 


Eu vi o que precisa ser curado. Eu poderia com minhas mãos retirar a tua dor, o teu sofrimento - pelo menos, a nível espiritual, que acaba reverberando em outros corpos - mas não posso te oferecer a cura. É você que tem que cruzar o limiar, sair da cidade, passar o riacho, chegar à mediação da floresta e então encontrar a bruxa (eu) para pedir sua ajuda. 

Assim dizem nossos grandes ensinadores, os contos de fadas e a mitologia. 


A bruxa aceita, mas só depois de testar a tua vontade. Baba Yaga ensina que, quem pede favores para a bruxa deve ser digno: deve separar grãos de trigo, papoula e terra, fiar o linho, limpar a casa e manter o fogo aceso. 


Mas, Baba Yaga, eu não tenho milhares de anos como tu (minha alma sim, mas a Helena, não), senhora, para ter a força no coração de ver a dor de outrem e não oferecer-lhe ajuda. Senhora, é o caminho de toda curandeira tornar-se contida e niilista? Senhora, então. estou no caminho correto.


A magia das Musas te chama para um ritual atemporal, onde vamos despertar nossa areté – o poder interior que nos guia para a virtude, o propósito e a excelência. (Incrível, né?) 🏛️🏺

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