Em meu último ritual, refleti sobre os meus problemas, como melhorar como pessoa, minhas dores, minhas sombras. Então chegou um momento em que não aguentei mais e pensei: chega.

Tudo eu, eu, eu. Ai, que egoísmo! Quanto sofrimento, durante toda a vida tem que melhorar. Tudo sobre mim. Não quero mais ser eu. Quero ser um conceito, um negócio, uma ideia… Mas eu já sou, né? Na cabeça de vocês, por exemplo. Vocês não me conhecem, vocês têm uma ideia de mim. Dessa “Helena Krauel” da internet. Na minha cabeça. Quais visões tenho sobre mim? É, deixa.

Então, eu quero ser uma planta. Ah, a planta pode não ser autoconsciente, mas ela é conectada com a terra, com os organismos e ela também sente dor. Também sofre. Então o que eu quero? Não quero mais sofrer, estou fatigada da existência. 

Só queria descansar um pouquinho. Morrer? Não adianta também. Sinto lhe dizer, minha cara pessoa-que-não-sabe-o-que-acontece-depois-da-morte. Ah, “libertar-se da Roda de Samsara”. Deve ser. Se me falar de céu e inferno, eu tenho um treco. O tribunal de Osíris? Até me identifico. Mas tudo isso é para nos guiar durante a vida. O sofrimento só acaba quando o universo, a manifestação, decidir acabar. Quando o universo que está experienciando a si mesmo, não estiver mais.

Porque chegar ao estado de Buda é ter consciência do sofrimento que vai permanecer, eterno, enquanto a manifestação existir, e mesmo sendo consciente disso: estar em paz. Contente. Um dia eu chego lá! No momento, dá uma oscilada. Muito bom estar vivendo, ajudando as pessoas, crescendo, sentindo, aprendendo… mas às vezes a gente só queria dar uma descansada na consciência, voltar a ser um com o todo.


O que de fato importa é o significado do símbolo para quem o está lendo. E assim matamos todos os oráculos, sonhos, visões, etc. Se sonho com uma cobra e um cristão sonha com uma cobra, são significados completamente diferentes. Para uma pessoa ordinária, a cobra teria um significado de falsidade: “aquela cobra!”. Para uma bruxa, sabedoria. Afinal, ela transita com sua barriga pela matéria, mas consegue subir ao cume das árvores - o céu, o mais próximo do divino. Ou talvez cura, por conta de sua peçonha. Se um cristão sonha com uma cobra que o morde, há alguém o traindo. Se a bruxa sonha, está sendo curada ou tornando-se sábia.

Compreender os símbolos é essencial para a bruxa. Cada indivíduo possui seu jardim simbólico pessoal, sua cosmologia, aquilo que faz sentido desde seu nascimento (cultura familiar, local, etc.) e aquilo que ressoa com ela de alguma forma (corta pra branquela aqui que curte simbologia egípcia). O contexto brasileiro é importante também. Somos brasileiros, mas não somos nativos, não somos o povo originário para apropriar-se da cultura indígena - porém, nos apropriamos do local, da mata, da natureza e de toda a amálgama feliz que nos faz ser como somos.

É essa simbologia que vai ressoar contigo, e você com ela. “Ah, por que X divindade apareceu para mim?” - pois é uma correspondência. Você precisava daquela energia e ela apareceu para você, como um… espelho da água. Um espelho da água não cria um reflexo perfeito, mas é correspondente. As energias usarão uma vestimenta para chegar até você, através do símbolo. Uma divindade, uma entidade, uma ideia… ela vai ter nome, corpo, cor… porque nós, humanos, precisamos dar forma para entender algo. Dar nome aos bois. Então, os evocamos através desses nomes.

Estava assistindo a uma aula de literatura e o professor disse: se triângulos tivessem deuses, esses deuses seriam triângulos. Genial. Quando comentei sobre isso, uma leitora respondeu: “Ah, quem sabe por isso as divindades da umbanda, para pessoas brancas, são retratadas como brancas.” Caramba! Às vezes, precisamos de entendimentos complicados para chegar à resposta simples, né, bruxas?


Quando leio Fernando, leio uma página, leio duas, e paro. É muito para sentir. Há muito para desmembrar. Quando ele diz: "Mas a minha tristeza é sossego, Porque é natural e justa, E é o que deve estar na alma, Quando já pensa que existe, E as mãos colhem flores sem ela dar por isso." lembro-me que vou morrer (memento mori) e estar aqui é uma ilusão que precisa ser relembrada constantemente. Reconheci, em suas palavras, Helena Blavatsky (Pessoa traduziu “A Voz do Silêncio” e foi uma experiência transformadora) sobre Voltar ao Colo do Pai: ser uno com o Todo. Não necessariamente morrer, mas sim, voltar ao Universo.

Todas as vezes que ensino sobre viver na matéria, conto a história do monge. O discípulo perguntava para o mestre como ele fazia para viver aqui, na terra, com as dores do ego, e manter-se iluminado. O mestre responde: Eu sei que a matéria é uma ilusão. Mas quando quero passar por uma porta, eu a abro, não passo reto e dou de cara nela.

Ilusão sim, mas ainda habitamos estes corpos.

Então, também escreveu: "Não tenho ambições nem desejos. Ser poeta não é uma ambição minha." e lembrei-me da Verdadeira Vontade, a vontade livre de ambição, de resultado. Eles trocavam cartas, sabia? Crowley e Pessoa.

E em toda sua profundidade mística, encerra acendendo um cigarro: "E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações, E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto." feito nós, bruxas, com as sensibilidades do viver, mas também, lembrando do prazer, finalizando um ciclo de questionamentos que será iniciado novamente, em breve.



 Quando dei por mim, lendo aquele conto (Um cálico extremis, de Hilda Hilst), percebi que falava de morte, de vida - afinal, não existe um sem o outro. A vida começa assim que você comunica, manifesta; pois, no princípio era o verbo & existir é comunicar. E quem não é ouvido? As mulheres, refugiados e as pessoas em situação de rua, esses, não-visíveis (invisíveis, não), o quanto existem? Eu os ouço?


Yeshua disse para falar para quem tem ouvidos, ou algo do tipo. Gosto disso. A fala (e a escrita) é sagrada, por que falaria para quem não quer ouvir? Para existir. Para quem eu existo? E isso importa? Existo porque existo, assim como Deus criou a matéria porque criou. Não há propósito. Falo porque tenho a dizer, tenho a dizer porque existo e você, pupila, ouve porque é capaz.


Falo, com a palavra dou o nome. Dou nome às coisas desde que nasci. Dou nome para medir, dou nome para entender. Quando eu nomeio, evoco. Dou voz. Domino. Palavra é feitiço. É por isso que as bruxas não dão seus nomes de nascimento. Tolas. Coitadas. Existe um nome mais poderoso, verdadeiro, antes dessa tua vida. Mas entendo. Batizados e seus novos nomes. Tem gente que tem um pra cada fé. No final, nada compreende. Nem sabe o porquê.


E morto, fala? O princípio era o verbo. Existir é respirar. OM. Morto não respira. Mas fala. Sonho com meus mortos frequentemente. Bisavô, bisavó, aqueles que nem conheço. Sou eu falando ou são eles que me falam? Será que não morreram? Não voltaram para o uno? Para o Colo do Pai? Estão esperando na fila da reencarnação? Não, nao esperam, porque o tempo é obra de mortal, de material. “Estou morto quando isso seria o inexprimível”, escreveu Hilda. Não existe esse negócio de morrer.


Você acha que vou conseguir morrer, Hilda? Ou desejarei voltar a “dar forma às aparências”, como escreveste? Não tenho grandes apegos, sabe, talvez, um senso de justiça. Aquilo que disse Sidarta. Vou ajudar os homens a entrarem no Nirvana até ver as costas do último homem. Algo assim. Será que vou aprender a morrer ou é só egoísmo? (respira, Pneuma)




Tudo que dá errado dá certo. Em um mês de espera para ritualizar na lua cheia, tomei um banho de cabeça com a magia das flores brancas (uma poção que a ideia inicial era para ser um perfume, o “deu errado” dando certo novamente), purificando os pensamentos, removendo os lamaçais das dores e tornando a mente transparente para receber a luz do divino: resultou em enxaqueca. Eu, que nunca tenho dores de cabeça, precisei cancelar meu ritual que aguardei tão ansiosamente.

Frustrei-me totalmente e fiquei indisposta para tudo. Mas então, os dias que se sucederam foram incríveis, a ponto de eu poder realizar meu ritual - mesmo tendo passado a lua cheia. É sempre assim. Enquanto realizava, aleatoriamente, a playlist tocava uma música que nunca ouvi,“Moon Ritual”, confirmando aquilo que já não era mais necessário dizer. A cada ritual que faço, o ensinamento: confia. Larga o perfeccionismo e a mania de controle. Tá tudo certo. Mas o que fazer quando sabemos disso, digo, racionalmente entendemos o problema e aquilo que os Deuses querem nos ensinar, porém é difícil de colocar esse aprendizado em prática?

Ritualizamos novamente. E em cada ritual, lembramos aquilo que é preciso ser relembrado. Desta vez, decidi, apesar de toda resistência, realizar um ritual solitário e estruturado (ainda está nascendo, no processo de criação) toda a lua cheia, para lembrar o que já sei, mas que sempre esqueço, afinal, temos na alma o pedaço do divino, porém somos revestidos deste “carro” chamado corpo. Nós, os condutores do carro, às vezes esquecemos disso, esquecemos do que somos/estamos (memento mori?).

A nível de curiosidade e inspiração, direi quais serão os feitos desses rituais lunáticos. Primeiro, o banho de cabeça com as flores brancas purificadoras. Depois de passar meses criando o perfume (que tornou-se banho mágico), descobri no Museu Egípcio que um perfume muito semelhante era oferecido ao Faraó e limpeza de estátuas dos Deuses Antigos. Esse mesmo perfume eu fiz para os Deuses e meus amuletos, adicionando plantas venenosas poderosas. Assim o ritual se sucede com a energização de amuletos, estátuas, joias, cristais e feitiços com esse perfume venenoso. Isso tudo é a purificação. Claro que neste momento já estou com o banimento feito e a casa limpa. 

Ofereço então um copo de água fresca aos mortos, dispondo fotos de meus ancestrais, ao final do ritual bebendo a água com suas bênçãos e recolhendo suas fotos. Acendo uma vela no caldeirão, com a estatueta de Seth. Sento-me próxima à chama e medito, toco tambor, canto… recebo e ofereço o que devo receber e oferecer depois de fazer as invocações e evocações. Interessante foi perceber que há necessidade também de realizar algo com O Gato, espírito guardião da Jornada da Bruxa, mas sei que é na próxima lua cheia que a inspiração virá.

Com carinho,

Hele

❤️




É importante que a bruxa mude seu altar. A natureza, muda.

Essa necessidade nasce, principalmente, para bruxas que ficam muito tempo em casa - como eu. Os elementos do altar são símbolos: eles carregam uma infinidade de significados para a bruxa e, como uma ponte, levam nossa mente (consciente ou inconsciente) para sua magia. Acontece que o nosso cérebro está sempre economizando energia. Com o tempo, “paramos de enxergar” o nosso altar, pois a familiaridade leva à falta de atenção.


As mudanças podem ser feitas através dos elementos das estações (os sabás), de novos símbolos que agregamos aos nossos estudos ou, simplesmente, trocando uma coisa ou outra de lugar.

Particularmente, sou uma grande tradicionalista (e caoista também, se for possível) no quesito decoração, símbolos, acessórios, roupas e etc.


Para minha bruxaria como filosofia de vida, as coisas não devem ser apenas coisas, mas sim, serem preenchidas de significados. Deve-se atribuir sentido, empoderando tanto a minha casa, a minha magia, quanto um simples colar de uso diário




Este é o primeiro texto do ano. Ele vem nascendo na minha mente confusa, misturando a vontade de conversar com vocês sobre a solidão de Éllen (Nosferatu, 2024) e a nossa solidão - a da bruxa. Porém, controversamente, sinto na minha solidão a necessidade do compartilhar. 


Quando eu era uma jovem estudante de ciências biológicas (descontinuei a faculdade e hoje, sou formada em administração), o professor de Educação Ambiental fez várias dinâmicas conosco, numa saída de campo. No fim do dia, sentamos em roda e conversamos sobre nossos insights. Uma pessoa, disse: “Felicidade boa é felicidade compartilhada.”


Esta fala, deu o sentido (quase como a manifestação de um símbolo) para muitas coisas que eu sempre senti em relação à magia. Em um dos primeiros insights, aos quatorze anos, percebi que o vazio que eu sentia era preenchido pela magia e pela espiritualidade. Desde então, quis compartilhar a espiritualidade com as pessoas, principalmente a bruxaria. “Felicidade boa é felicidade compartilhada”.


Porém, a minha caminhada é solitária. Quando eu era jovem, até acreditei (na realidade, fui iludida e ludibriada) que era coletiva, mas não. As pessoas passam pelo meu jardim, bebem da fonte e vão embora - e está tudo bem, é o dever da sacerdotisa. Mas sinto falta de ser essa pessoa também, a que tem uma fonte viva e palpável de onde beber. 


Quando penso em parar de jorrar (transmitir o conhecimento oculto), relembro a minha verdadeira vontade, e, quando aprendo, meu primeiro instinto de amor incondicional é a grande vontade de compartilhar, escrever, contar e ensinar. Mas aí, no meu desequilíbrio, na falta da fonte para beber - e me refiro a pessoas, não livros, espírito ou divindade - me vejo na solidão. Como a Éllen, desejando e ansiando a companhia, que atravesse os oceanos e compreenda as suas sombras.