O tema da moral, na psicologia assim como na filosofia, é abordado por praticamente todos

os grandes autores. Ao propor que a moral é oriunda de um dever incondicional, Kant

(1994) levanta a discussão sobre se o sentimento de obrigatoriedade corresponde a um

fator psicológico. Essa obrigatoriedade pode ser encontrada, de acordo com Durkheim

(1974), em um sentimento do sagrado ou do coletivo, e Freud (1991) menciona suas

esferas inconscientes do superego. Porém, qual é a origem dessa voz da consciência que

inclina a pessoa a agir de tal forma e não de outra?

Piaget (1932) afirma que “tal tese só é chocante para os que permanecem incapazes de

experimentar em si próprios esta obrigação superior e puramente imanente que constitui a

necessidade racional”, o que parece tornar óbvia a resposta a partir de um conhecimento

empírico. Lipovetsky (1992) culpa a cultura do egoísmo: “obrigação de nos apegar apenas a

nós mesmos”. É interessante notar que, no hinduísmo, há na cosmologia do Mahabharata a

afirmação de que a era atual que vivemos é chamada de “Kali Yuga”, e é descrita como

uma era de escuridão e decadência moral, na qual estaríamos vivendo há cerca de 5 mil

anos. Assim, Tugendhat (1998) afirma que a moral deve manter a possibilidade de uma

pluralidade de concepções. Para ele, o vetor do desenvolvimento moral leva ao ideal de

justiça pela equidade, à perspectiva da reciprocidade universal e ao imperativo categórico

kantiano, que preconiza que devemos sempre tratar a humanidade, na nossa própria

pessoa e na pessoa de outrem, como um fim em si e não apenas como meio. Enfim, os

diversos sistemas morais e seus limites se modificam de acordo com a cultura. Um exemplo

é a excisão genital em meninas, que é mencionada no artigo, enquanto a circuncisão

judaica não é.

Assim, a consciência nasce através do contraste, dando origem a novas concepções de

moral para a evolução da sociedade como um todo. Os indivíduos sempre se comportam de

maneira coerente com o que julgam ser o moralmente correto? Em parte da mitologia do

Antigo Egito, o mito chamado Julgamento ou Tribunal de Osíris (O Livro dos Mortos)

consistia em, após a morte, a pessoa ter seu coração posto em uma balança. Se seu

coração fosse mais pesado que uma pena (de Maat, simbolizando verdade e justiça), sua

alma era devorada por Ammit. Se fosse leve ou igual à pena, ela era digna da vida após a

morte. A sua própria consciência da prática moral seria julgada.

O comum entre Durkheim e Freud é a hipótese de que a moral se instala em cada indivíduo

por um processo de interiorização, uma pressão social que molda o indivíduo, oposta

àquela construtivista, que pressupõe uma atividade criadora do sujeito. Pergunto-me se não

dá para ser “um pouco dos dois?” Contudo, Kant (1994) afirma sobre o inevitável divórcio

entre autonomia moral e sensibilidade.

Há abstração nos termos de moral e ética; porém, no meio acadêmico, de acordo com o

artigo, aceita-se que a diferença entre ética e moral é reservar a primeira para os estudos

científicos e filosóficos do fenômeno moral. Autores como Ricoeur (1990) inserem também

na ética a busca por uma vida realizada e, na moral, um “caminho” para chegar a essa

realização. Em suma, para Kant (1990), a moral "é uma ciência que ensina não a maneira

pela qual devemos nos tornar felizes, mas aquela pela qual devemos nos tornar dignos da

felicidade" (p. 15). Questionei-me se isso é um pensamento meritocrático sobre a felicidade

e refleti sobre o contentamento e a satisfação budista, descritos no Dhammapada.

“Como viver?” Perguntam Comte-Sponville (em Comte-Sponville & Ferry, 1998),

impregnando a ética. Essa pergunta não parece ser facilmente respondida em uma

sociedade que carece de exemplos simbólicos ou de admiração. Como chegar à “ética da

vida boa”, se para alcançá-la passa-se por cima dos valores morais? Ricoeur (1990) fala em


“passar as opções éticas pelo crivo da norma”. Logo, a moral limita a ética. Assim disse

Aleister Crowley em O Livro da Lei (1990): “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei”,

como “Todo homem e toda mulher é uma estrela”, ou seja: hajamos livremente, porém

reconhecendo a liberdade do outro.

A moral deve fazer sentido, pois o ser humano busca sentido na vida através da ética;

então, a lógica deve ser correspondida. Logo, para ser ético, não se deve ser imoral, pois a

busca de uma vida boa implica a busca de uma vida com sentido, e uma vida que faça

sentido deve passar pela busca e manutenção de representações de si com valor positivo.

Eles ainda concluem que a busca de sentido é essencial. A Psicologia Moral afirma, de

acordo com um de seus pioneiros, Blasi (1995), que os valores e as regras morais somente

têm força motivacional se associados à identidade. Portanto, para contemplar uma vida

ética, ou seja, feliz, é necessária uma conduta moral correspondente.


Referências

Kant, E. (1994) - Referido em relação ao dever moral e à autonomia.

Durkheim, E. (1974) - Mencionado sobre o sentimento do sagrado e a moral coletiva.

Freud, S. (1991) - Referido sobre a esfera do superego e a voz da consciência.

Piaget, J. (1932) - Citação sobre a obrigação moral e a necessidade racional.

Lipovetsky, G. (1992) - Sobre a cultura do egoísmo.

Tugendhat, E. (1998) - Discutido em relação à pluralidade das concepções morais e ao

imperativo categórico.

Ricoeur, P. (1990) - Mencionado sobre a ética e a busca de uma vida realizada.

Comte-Sponville, A. & Ferry, L. (1998) - Referido sobre a ética e a dificuldade de resposta

na sociedade atual.

Blasi, A. (1995) - Citado em relação à motivação moral e identidade.

Aleister Crowley - Mencionado em relação ao conceito de liberdade e moralidade com a

citação de O Livro da Lei.

 Há uma conexão entre os animais que são tão belos que quase são místicos, os cavalos e

a bruxaria. Acreditava-se que, durante a noite, as bruxas pegaram os cavalos emprestados

de seus vizinhos para passear. Ao amanhecer, esses animais apareciam com crinas

emaranhadas e pelos encharcados de suor, como se tivessem vivido uma aventura intensa.

A expressão inglesa “hag-ridden”(assombrado por pesadelos, ansiedades e relacionado à

paralisia do sono, sensação de um peso sobre o peito), que significa "montado por bruxa".

Aqui no Brasil, especialmente em Florianópolis, essa crença foi bastante viva. Franklin

Cascaes, um grande escritor local, falava sobre como as bruxas faziam nós terríveis nas

crinas dos cavalos, impossíveis de soltar. Ele descrevia como, ao amanhecer, os animais

pareciam exaustos, como se tivessem galopado pelos ares durante a noite (montados,

certamente, pelas bruxas).

Uma história de Florianópolis e As Bruxas é a de um homem que, ao acordar, sentia dores

no corpo e decidiu procurar um benzedor. O diagnóstico foi o seguinte: sua mulher era uma

bruxa que, à noite, transformava-o em cavalo e o usava como montaria para voos noturnos

“até cantar o galo” (sol nascer). De fato, nos bruxas fazemos voos noturnos quando

dormimos e em nossos rituais astrais - insira aqui alguma piada sobre “montar” em homens.

Na tradição ocidental, alguns amuletos eram usados para afastar bruxas, como uma pedra

furada. Este é um amuleto que me encanta muito e é mencionado em "Aradia: O Evangelho

das Bruxas". No entanto, conheci uma stregga que questionava a credibilidade do autor,

Charles Godfrey Leland, apesar de eu ter lindas experiências espirituais com o livro.

Outro símbolo interessante é a ferradura pendurada acima das portas, que se acreditava ter

o poder de proteger contra bruxas, para a bruxa não entrar em sua casa. Bom... eu

realmente estou evitando sair de casa, ainda mais ir para a casa alheia. Piadas a parte, em

Florianópolis as bruxas eram acusadas, inclusive, de chupar sangue de crianças as

deixando anêmicas, então a preocupação em existir uma bruxa fazendo parte da

comunidade secretamente, era muito séria - e óbvio, preconceituosa, afinal, as mulheres

fora da norma eram acusadas de tal feito. Bom, no fim, a conclusão que chegamos

atualmente é que o que realmente incomodava os cavalos à noite eram os morcegos.

 A vida começa com a comunicação; pois, no princípio, era o verbo, e existir é

comunicar. O filósofo francês LÉVINAS constroi uma tentativa de sair do ser,

rompendo com o círculo tradicional da filosofia clássica que não pensa e nem

concebe o outro enquanto relação. A alteridade não é entendida só pela minha

razão, ela acontece a partir do outro. A alteridade se configura como uma relação

ética do outro comigo, onde o “eu” assume a responsabilidade pelo cuidado do

outro, pelos seus rostos. Mas quem realmente não é ouvido? Quais são os rostos

que Lévinas menciona e que não são vistos? As mulheres, os refugiados e as

pessoas em situação de rua são exemplos de indivíduos que se tornam invisíveis. O

quanto eles existem? Eu os ouço? Eu os vejo?

‘’O Outro, ou o rosto do Outro, não é Deus, mas no rosto se manifesta Deus. O

outro se chama rosto, porque ele é uma presença vivant, porque ele desfaz a todo

instante a forma com que ele se oferece, porque ele é presente. (...). O rosto é

expressão por excelência. Seria como antes de abrir a boca, ou mesmo antes de

emitir um som, o rosto, (...) “formula a primeira palavra: o significante sugerindo a

ponte de seu signo, como os olhos que vão olhando”. O rosto, inegável proximidade

do Outro que propriamente fala e não me olha, mas de repente “me olha”

(Grzibowski, 2010, pp. 76-84).

Lipovetsky (1992) critica a cultura do egoísmo, que nos impõe a obrigação de nos

apegar apenas a nós mesmos. Para além dessa barreira, a ação ética se revela

responsável pelo cuidado do outro, sem gerar violência. Quando se realiza uma

análise, percebe-se que onde há violência, há egoísmo. Até hoje, em minhas

reflexões pessoais, não encontrei um problema social ou individual cuja raiz não

fosse o egoísmo. Não é uma ideia nova, por exemplo, o conceito de ahimsa (अहिसा ं ),

oriundo do sânscrito, é um princípio ético-religioso presente na literatura clássica

hinduísta, como o Mahabharata e o Ramáiana, que consiste em não cometer

violência contra outros seres. A evidência mais antiga do termo é datada do século

VIII ou VII a.C., no sentido comum do hinduísmo, como um código de conduta, ao

proibir a violência contra "todas as criaturas" (sarvabhuta).


O pensamento levinasiano completa a ideia de bem-viver. Piaget (1932) discute a

experimentação da "obrigação superior e puramente imanente que constitui a

necessidade racional" do viver moral e ético. Tugendhat (1998) também contribui

para essa discussão ao abordar o vetor do desenvolvimento moral que leva ao ideal

de justiça pela equidade, à perspectiva da reciprocidade universal e ao imperativo

categórico kantiano, que preconiza que devemos sempre tratar a humanidade, em

nossa própria pessoa e na pessoa do outro, como um fim em si e não apenas como

meio.

A ética não deve sobrepor-se à moral. Para ser ético, é necessário não ser imoral,

pois a busca por uma vida boa implica a busca por uma vida com sentido. Uma vida

que faça sentido deve passar pela busca e manutenção de representações de si

com valor positivo, conforme afirmado por Blasi (1995), que argumenta que os

valores e as regras morais somente têm força motivacional se associados à

identidade. Portanto, para não ser imoral, é imprescindível viver a alteridade.

Se a filosofia de Lévinas contempla que não há relação quando se tem posse e

manipulação do objeto, Geni Papos, mulher guarani, doutora e psicóloga, ressalta

que, no pensamento decolonial indígena brasileiro, além do não-mono (não

monogamia, não monocultura, monoteísmo, etc.), há o atravessamento do tempo

em espiral. O tempo do homem branco é visto como um objeto de posse e

manipulação, linear e não circular. Assim, a relação se torna posse, e o tempo

também é posse. A criança, assim como o velho, está à margem. Portanto, a

sociedade não experimentará alteridade, enquanto não se racializar e descolonizar,

afinal, a instituição e a normativa faz a manutenção do controle dos corpos. A ética

está relacionada ao social, ao político, ao econômico, ao cultural e ao religioso.

Como menciona Lévinas, a relação ética não depende de uma ação que exija uma

consequência ou efeito posterior; ela é a unicidade e a subjetividade do outro.

Fernando Pessoa, em "A Tabacaria", escreveu: "Não tenho ambições nem desejos.

Ser poeta não é uma ambição minha." Essa citação lembrou-me à Verdadeira

Vontade, de Aleister Crowley, que trocava cartas com Pessoa e ensinava, com base

em seus estudos de filosofia e espiritualidade oriental, que a satisfação da vida do

homem reside na vontade livre de ambição e de resultados. Com Kant, Lévinas


afirma que a vida humana "significa que o outro não é apenas um objeto, um

instrumento, algo que poderíamos nos contentar em utilizar, mas que também é um

sujeito, um fim em si".

Emmanuel Lévinas critica os sistemas sociais que não reconhecem o outro de forma

holística. Contudo, como mencionado, há milhares de anos existem sistemas que

promovem a alteridade e tantas religiões e culturas que compõem essa ideia como

alicerce - inclusive Jesus sobre Amar a Todos. Assim, a responsabilidade é

efetivada antes mesmo de ser pensada, antes mesmo de ser consciência do sujeito.

Susin (1984, p. 408) comenta que o direito de viver se torna ilegítimo diante da fome

do outro.

Em conclusão, a análise da alteridade e da responsabilidade ética, à luz do

pensamento de Lévinas, revela a necessidade urgente de escutar e valorizar as

vozes silenciadas na sociedade, promovendo uma ética do cuidado que desafia a

cultura do egoísmo. As questões de racialização, controle de corpos e

decolonização se configuram como pilares essenciais nesse debate, exigindo uma

crítica profunda às estruturas de poder que perpetuam desigualdades históricas e

sociais. Alimentando práticas enraizadas no egoísmo, na posse, violência, na

propriedade privada e nas influências do cristianismo e do protestantismo. Portanto,

a construção de uma sociedade e espiritualidade mais justas não pode se limitar a

ações superficiais, mas deve envolver uma reavaliação crítica das narrativas e das

práticas que sustentam essas desigualdades. A vivência da alteridade é

acompanhada de uma responsabilidade ética que permeia todas as esferas da vida.

Referências


Andrei Zanon, (2019) O PRINCÍPIO DA ALTERIDADE DE LÉVINAS COMO

FUNDAMENTO PARA A RESPONSABILIDADE ÉTICA

KANT, E. (1994). Referido em relação ao dever moral e à autonomia.


DURKHEIM, E. (1974). Mencionado sobre o sentimento do sagrado e a moral

coletiva.


FREUD, S. (1991). Referido sobre a esfera do superego e a voz da consciência.


PIAGET, J. (1932). Citação sobre a obrigação moral e a necessidade racional.


LIPOVETSKY, G. (1992). Sobre a cultura do egoísmo.


TUGENDHAT, E. (1998). Discutido em relação à pluralidade das concepções morais

e ao imperativo categórico.


RICOEUR, P. (1990). Mencionado sobre a ética e a busca de uma vida realizada.


COMTE-SPONVILLE, A. & FERRY, L. (1998). Referido sobre a ética e a dificuldade

de resposta na sociedade atual.


BLASI, A. (1995). Citado em relação à motivação moral e identidade.


CROWLEY, A. Mencionado em relação ao conceito de liberdade e moralidade com

a citação de O Livro da Lei.


DUSSEL, E. (1995). Filosofia da Libertação: crítica à ideologia de libertação. São

Paulo: Paulus, (Coleção Pesquisa e Projetos).


GRZIBOWSKI, S. (2010). Transcendência e Ética. Um estudo a partir de Emmanuel

Lévinas. São Leopoldo: Oikos.


LÉVINAS, E. (1980). Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70.


LÉVINAS, E. (1993). Humanismo do outro homem. Petrópolis: Vozes.


LÉVINAS, E. (2002). De Deus que vem a ideia. Petrópolis: Vozes.

LÉVINAS, E. (2005). Entre nós. Ensaios sobre a alteridade. 2 ed. Petrópolis: Vozes.


MELO, N. V. (2003). A ética da alteridade em Emmanuel Lévinas. Porto Alegre:

EDIPUCRS.


OLIVEIRA, E. T. (2007). Centenário do Nascimento de Emmanuel Lévinas: Ética da

alteridade e o sentido do humano em Lévinas. Tabulae Revista de Filosofia. Curitiba:

Vicentina.


SUSIN, L. C. (1984). O homem messiânico. Uma introdução ao pensamento de

Emmanuel Lévinas. Porto Alegre: Vozes.

Como dizem os Vedas: a verdade é uma só, mas os sábios falam dela sob muitos nomes. O que isso quer dizer? A iniciar, os Vedas são as escrituras mais antigas e sagradas do hinduísmo, compostas em sânscrito arcaico na Índia antiga (aprox. 1500-500 a.C.). Significa "conhecimento" e abrange hinos, rituais, filosofia e orações.

A verdade é uma, mas os sábios falam dela sob muitos nomes. Isso significa que existe um pilar, um fundamento, um caminho para aquilo que traz bem-estar humano, felicidade, contentamento e mais. Então, esse pilar, que pode ser, por exemplo, o amor, é traduzido e interpretado pela cultura.

Ou seja, pode existir um símbolo em uma religião e outro símbolo em outra religião que têm a mesma essência, significam “a mesma coisa”. Porém, são traduzidos, enviesados, pela cultura, pela linguagem, pelas tradições, pelo país, pela vivência pessoal, etc. Uma cruz católica e um ankh egípcio, por exemplo, podem ser ambos observados como símbolos do espírito em congruência com a matéria. Então, percebemos que muitas religiões, de origens diferentes, parecem dizer a mesma coisa, só que de outra forma/roupagem/linguagem. Essa filosofia comparada eh muito natural do ocultista, Crowley o fez. 

Assim, se questionarmos o que há de comum nas mais diversas filosofias e religiões, encontramos eixos da vida que levam a vida humana ao equilíbrio. Quando compreendemos o conteúdo simbólico dessas filosofias, purificamos as contaminações do ego humano, o que sobra é o amor, a bondade, a humildade, a sobriedade, alteridade… e vários caminhos para chegar até as virtudes. Através disso, é possível estudar e absorver conhecimentos de diversas cosmovisões, ideologias e filosofias, apropriando-se daquilo que faz sentido para sua fé e identidade, criando sua própria visão de mundo.


O ritual nos leva a cruzar por difíceis limiares de transformação. Transformações de mudanças de padrão, de vida consciente e inconsciente. Não apenas rituais complexos de uma bruxa, mas até, por exemplo, cerimônias de nascimento, aniversários e rituais de morte. Atualmente o sentido de muitas cerimônias foi esvaziado, muitas vezes realizadas sem consciência da sua verdadeira potência. Potência do coletivo, do símbolo, da comunidade e cultura. 


Inclusive em muitas religiões o sentido do ritual foi distorcido. Foram traduzidas a algo literal e não ao significado profundo. A exemplo “O corpo e sangue de Cristo”, e um dos seus simbolismos de purificação e unificação do espírito e da matéria. Dessa unificação nasce o equilíbrio que nos ajuda a passar pela vida de forma mais agradável. O espírito não é de “fantasma” ou outro plano, mas o sutil e elevado, as virtudes do ser humano, aquilo que fazemos de bom e de humano. A bondade, humildade, o amor incondicional. A matéria, o prazer, a beleza, os sentidos, a contemplação. 


Quando uma bruxa ritualiza, nós passamos por limiares que nem nós sabemos. Magos de alta magia dirão: “eu obtenho exatamente o que eu quero, quando eu quero, ao fazer magia e assim tem de ser!” - bom, e desde de quando ter o que a gente quer, é bom pra nós? A gente não sabe o que é bom pra gente. Essa parte aí é com os Deuses, com a Natureza. Quantas vezes você “teve o que queria” e isso te trouxe muito mal? É, em relação a natureza, aos deuses, somos apenas crianças passando pelas primeiras provas do ensino fundamental. Se reprovamos, a natureza nos testa novamente, um mesmo teste porém com outra roupagem, até que a gente consiga passar de ciclo. 


Nesses momentos eu concordo com Madame Blavatsky: o que podemos fazer é honrar a verdade com a prática e, além disso, fazer o que nos compete como seres humanos, dar o nosso melhor. Você está fazendo o que é certo quando dá o seu melhor - isso não é sobre produzir e performance capitalista “trabalhe enquanto eles dormem” - é sobre escolher o caminho que não pesa o seu coração (julgamento de Osíris) correspondente a consciência que você tem naquele momento (não se arrependa das decisões do passado se você não tinha a mentalidade que você tem hoje). Então a gente ritualiza pra ter fundamento, consciência, iluminação e presença para saber o que plantamos: por que a colheita vem. A colheita chega, não importa se você estava consciente, ou não, do que plantou.


 Buda, depois de passar por muitos estágios de iniciação e provações, recebe o conhecimento de suas vidas passadas: 


Sentado sob uma árvore e voltado para o leste, ele viu a natureza se iluminar com sua própria radiância até que Sujata, uma jovem devota, lhe ofereceu arroz em uma tigela de ouro; ao lançar o objeto vazio ao rio, este flutuou, sinalizando que seu triunfo estava próximo. Ele seguiu então por uma estrada divina de proporções monumentais, cercado pelas homenagens de serpentes, pássaros e divindades que celebravam sua jornada com perfumes e coros celestiais enquanto ele se dirigia à Árvore Bo para redimir o universo. Ao se posicionar no Ponto Imóvel sob a árvore, foi confrontado por Kama-Mara, o deus do amor e da morte, que surgiu montado em um elefante e liderando um exército colossal que cercava os confins do mundo. Embora as divindades protetoras tenham fugido, o Futuro Buda permaneceu imóvel diante das investidas violentas de Mara, que lançou furacões, chamas e armas cortantes contra ele, apenas para ver tais ameaças se transformarem em flores e ungüentos pelo poder das dez perfeições de Gautama. Nem mesmo a tentação das irmãs Desejo, Dissipação e Luxúria distraiu sua mente, e quando o deus contestou seu direito de ocupar aquele lugar sagrado, o Salvador tocou a terra com os dedos, convocando a deusa Terra como testemunha. O bramido ensurdecedor da Terra fez o elefante de Mara se ajoelhar e dispersou o exército inimigo, permitindo que, após essa vitória preliminar, o conquistador alcançasse o conhecimento de suas vidas passadas, a visão onisciente e a compreensão da causalidade, atingindo a iluminação perfeita ao romper da alvorada.

(O Herói de Mil Faces, página 38)


Ao final de sua jornada de iluminação, conquista o conhecimento que tantas pessoas anseiam, pela curiosidade ou ilusão, sem qualquer autoconhecimento prévio, psicológico ou espiritual. Você, que busca as histórias de suas vidas passadas, consegue responder a grande indagação de Absolem, a Lagarta de Alice no País das Maravilhas: Quem és tu? Quem és tu hoje? Há um discurso sedutor em olhar para a vida de outrem antes de conhecer a sua própria.


A crítica é necessária onde o egoísmo é exacerbado. Tarólogas e místicos que iludem consulentes para vender seus feitiços, “limpando karmas”, alimentando-se da vulnerabilidade alheia, da consulente que vive relacionamentos difíceis por “questões de vidas passadas” e então permanece em uma relação violenta, falida ou gasta o dinheiro que não pode para comprar feitiços numa venda casada.

Quantas “reencarnações de Cleópatra” encontramos na internet, falando abertamente sobre essa experiência ao ponto de virar meme - afinal, há dezenas delas. Há de se ter os pés no chão quanto à espiritualidade, pois com nossas ilusões e egoísmos, acreditamos no que queremos: aquilo que é mais fácil e belo, que alimenta o que for mais conveniente para a nossa narrativa egocêntrica, vitimista, etc & etc. “Orai e Vigiai”, observando nossos pensamentos, seus fluxos, o que e como os alimentamos, pois Deus e o Diabo vivem em nós. 

Estudar sobre reencarnação, karma, Samsara… serve como conduta, como parâmetro. Há de fazer o que é certo porque é certo e não pensando em melhorar a sua próxima vida. Fazer o correto para não reencarnar numa vida miserável é o mesmo que não pecar para ir para o céu ou continuar cometendo corrupções pois não está sendo “pego” pela legislação burlada. Logo, seguindo essa mentalidade, as pessoas que sofrem hoje são merecedoras dessas injustiças pois realizaram maus feitos em vidas passadas? 

Quando o Bhagavad Gita diz para oferecer suas ações à Krishna, não interpreto feito servidão como um escravo, mas sim sobre viver o amor. Quando Osíris julga seu coração mais leve que a pena de Maat, é sobre a justiça em vida. Lévinas (1980) sobre alteridade, onde a relação ética não depende de uma ação que exija uma consequência ou efeito posterior; ela é a unicidade e a subjetividade do outro. Verdadeira Vontade, todo homem e toda mulher é uma estrela.

Pessoalmente, em minha jornada de bruxa como identidade e filosofia de vida, obtive o conhecimento de duas encarnações passadas. O que mudou em minha vida? Nada. Auxilia a concretizar e corroborar com alguns conhecimentos pulverizados da mística e ocultismo, como o desapego da identidade Helena (Memento Mori, lembre-se que vais morrer), diluição do ego e compreensão de parte da manifestação, como “o que vem depois da morte”. Porém, não há alívio. A reencarnação não é atraente, assim como, particularmente, não reencarnar é pior: a ideia de deixar este mundo onde há pessoas em sofrimento que poderiam ser auxiliadas de alguma forma através do pouco conhecimento que aprendo ou realizando um benzimento, é terrível. Inspiro-me em Buda quando afirma que reencarnaria até que visse as costas do último homem alcançar o Nirvana. 


Referências:

LÉVINAS, E. (1980). Totalidade e Infinito 

CAMBELL, J. (1989). O Herói de Mil Faces

e um monte de baboseiras das vozes da minha cabeça. 


 Em meu último ritual, refleti sobre os meus problemas, como melhorar como pessoa, minhas dores, minhas sombras. Então chegou um momento em que não aguentei mais e pensei: chega.

Tudo eu, eu, eu. Ai, que egoísmo! Quanto sofrimento, durante toda a vida tem que melhorar. Tudo sobre mim. Não quero mais ser eu. Quero ser um conceito, um negócio, uma ideia… Mas eu já sou, né? Na cabeça de vocês, por exemplo. Vocês não me conhecem, vocês têm uma ideia de mim. Dessa “Helena Krauel” da internet. Na minha cabeça. Quais visões tenho sobre mim? É, deixa.

Então, eu quero ser uma planta. Ah, a planta pode não ser autoconsciente, mas ela é conectada com a terra, com os organismos e ela também sente dor. Também sofre. Então o que eu quero? Não quero mais sofrer, estou fatigada da existência. 

Só queria descansar um pouquinho. Morrer? Não adianta também. Sinto lhe dizer, minha cara pessoa-que-não-sabe-o-que-acontece-depois-da-morte. Ah, “libertar-se da Roda de Samsara”. Deve ser. Se me falar de céu e inferno, eu tenho um treco. O tribunal de Osíris? Até me identifico. Mas tudo isso é para nos guiar durante a vida. O sofrimento só acaba quando o universo, a manifestação, decidir acabar. Quando o universo que está experienciando a si mesmo, não estiver mais.

Porque chegar ao estado de Buda é ter consciência do sofrimento que vai permanecer, eterno, enquanto a manifestação existir, e mesmo sendo consciente disso: estar em paz. Contente. Um dia eu chego lá! No momento, dá uma oscilada. Muito bom estar vivendo, ajudando as pessoas, crescendo, sentindo, aprendendo… mas às vezes a gente só queria dar uma descansada na consciência, voltar a ser um com o todo.