Moral e Ética

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 O tema da moral, na psicologia assim como na filosofia, é abordado por praticamente todos

os grandes autores. Ao propor que a moral é oriunda de um dever incondicional, Kant

(1994) levanta a discussão sobre se o sentimento de obrigatoriedade corresponde a um

fator psicológico. Essa obrigatoriedade pode ser encontrada, de acordo com Durkheim

(1974), em um sentimento do sagrado ou do coletivo, e Freud (1991) menciona suas

esferas inconscientes do superego. Porém, qual é a origem dessa voz da consciência que

inclina a pessoa a agir de tal forma e não de outra?

Piaget (1932) afirma que “tal tese só é chocante para os que permanecem incapazes de

experimentar em si próprios esta obrigação superior e puramente imanente que constitui a

necessidade racional”, o que parece tornar óbvia a resposta a partir de um conhecimento

empírico. Lipovetsky (1992) culpa a cultura do egoísmo: “obrigação de nos apegar apenas a

nós mesmos”. É interessante notar que, no hinduísmo, há na cosmologia do Mahabharata a

afirmação de que a era atual que vivemos é chamada de “Kali Yuga”, e é descrita como

uma era de escuridão e decadência moral, na qual estaríamos vivendo há cerca de 5 mil

anos. Assim, Tugendhat (1998) afirma que a moral deve manter a possibilidade de uma

pluralidade de concepções. Para ele, o vetor do desenvolvimento moral leva ao ideal de

justiça pela equidade, à perspectiva da reciprocidade universal e ao imperativo categórico

kantiano, que preconiza que devemos sempre tratar a humanidade, na nossa própria

pessoa e na pessoa de outrem, como um fim em si e não apenas como meio. Enfim, os

diversos sistemas morais e seus limites se modificam de acordo com a cultura. Um exemplo

é a excisão genital em meninas, que é mencionada no artigo, enquanto a circuncisão

judaica não é.

Assim, a consciência nasce através do contraste, dando origem a novas concepções de

moral para a evolução da sociedade como um todo. Os indivíduos sempre se comportam de

maneira coerente com o que julgam ser o moralmente correto? Em parte da mitologia do

Antigo Egito, o mito chamado Julgamento ou Tribunal de Osíris (O Livro dos Mortos)

consistia em, após a morte, a pessoa ter seu coração posto em uma balança. Se seu

coração fosse mais pesado que uma pena (de Maat, simbolizando verdade e justiça), sua

alma era devorada por Ammit. Se fosse leve ou igual à pena, ela era digna da vida após a

morte. A sua própria consciência da prática moral seria julgada.

O comum entre Durkheim e Freud é a hipótese de que a moral se instala em cada indivíduo

por um processo de interiorização, uma pressão social que molda o indivíduo, oposta

àquela construtivista, que pressupõe uma atividade criadora do sujeito. Pergunto-me se não

dá para ser “um pouco dos dois?” Contudo, Kant (1994) afirma sobre o inevitável divórcio

entre autonomia moral e sensibilidade.

Há abstração nos termos de moral e ética; porém, no meio acadêmico, de acordo com o

artigo, aceita-se que a diferença entre ética e moral é reservar a primeira para os estudos

científicos e filosóficos do fenômeno moral. Autores como Ricoeur (1990) inserem também

na ética a busca por uma vida realizada e, na moral, um “caminho” para chegar a essa

realização. Em suma, para Kant (1990), a moral "é uma ciência que ensina não a maneira

pela qual devemos nos tornar felizes, mas aquela pela qual devemos nos tornar dignos da

felicidade" (p. 15). Questionei-me se isso é um pensamento meritocrático sobre a felicidade

e refleti sobre o contentamento e a satisfação budista, descritos no Dhammapada.

“Como viver?” Perguntam Comte-Sponville (em Comte-Sponville & Ferry, 1998),

impregnando a ética. Essa pergunta não parece ser facilmente respondida em uma

sociedade que carece de exemplos simbólicos ou de admiração. Como chegar à “ética da

vida boa”, se para alcançá-la passa-se por cima dos valores morais? Ricoeur (1990) fala em


“passar as opções éticas pelo crivo da norma”. Logo, a moral limita a ética. Assim disse

Aleister Crowley em O Livro da Lei (1990): “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei”,

como “Todo homem e toda mulher é uma estrela”, ou seja: hajamos livremente, porém

reconhecendo a liberdade do outro.

A moral deve fazer sentido, pois o ser humano busca sentido na vida através da ética;

então, a lógica deve ser correspondida. Logo, para ser ético, não se deve ser imoral, pois a

busca de uma vida boa implica a busca de uma vida com sentido, e uma vida que faça

sentido deve passar pela busca e manutenção de representações de si com valor positivo.

Eles ainda concluem que a busca de sentido é essencial. A Psicologia Moral afirma, de

acordo com um de seus pioneiros, Blasi (1995), que os valores e as regras morais somente

têm força motivacional se associados à identidade. Portanto, para contemplar uma vida

ética, ou seja, feliz, é necessária uma conduta moral correspondente.


Referências

Kant, E. (1994) - Referido em relação ao dever moral e à autonomia.

Durkheim, E. (1974) - Mencionado sobre o sentimento do sagrado e a moral coletiva.

Freud, S. (1991) - Referido sobre a esfera do superego e a voz da consciência.

Piaget, J. (1932) - Citação sobre a obrigação moral e a necessidade racional.

Lipovetsky, G. (1992) - Sobre a cultura do egoísmo.

Tugendhat, E. (1998) - Discutido em relação à pluralidade das concepções morais e ao

imperativo categórico.

Ricoeur, P. (1990) - Mencionado sobre a ética e a busca de uma vida realizada.

Comte-Sponville, A. & Ferry, L. (1998) - Referido sobre a ética e a dificuldade de resposta

na sociedade atual.

Blasi, A. (1995) - Citado em relação à motivação moral e identidade.

Aleister Crowley - Mencionado em relação ao conceito de liberdade e moralidade com a

citação de O Livro da Lei.



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