O Princípio da Alteridade

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 A vida começa com a comunicação; pois, no princípio, era o verbo, e existir é

comunicar. O filósofo francês LÉVINAS constroi uma tentativa de sair do ser,

rompendo com o círculo tradicional da filosofia clássica que não pensa e nem

concebe o outro enquanto relação. A alteridade não é entendida só pela minha

razão, ela acontece a partir do outro. A alteridade se configura como uma relação

ética do outro comigo, onde o “eu” assume a responsabilidade pelo cuidado do

outro, pelos seus rostos. Mas quem realmente não é ouvido? Quais são os rostos

que Lévinas menciona e que não são vistos? As mulheres, os refugiados e as

pessoas em situação de rua são exemplos de indivíduos que se tornam invisíveis. O

quanto eles existem? Eu os ouço? Eu os vejo?

‘’O Outro, ou o rosto do Outro, não é Deus, mas no rosto se manifesta Deus. O

outro se chama rosto, porque ele é uma presença vivant, porque ele desfaz a todo

instante a forma com que ele se oferece, porque ele é presente. (...). O rosto é

expressão por excelência. Seria como antes de abrir a boca, ou mesmo antes de

emitir um som, o rosto, (...) “formula a primeira palavra: o significante sugerindo a

ponte de seu signo, como os olhos que vão olhando”. O rosto, inegável proximidade

do Outro que propriamente fala e não me olha, mas de repente “me olha”

(Grzibowski, 2010, pp. 76-84).

Lipovetsky (1992) critica a cultura do egoísmo, que nos impõe a obrigação de nos

apegar apenas a nós mesmos. Para além dessa barreira, a ação ética se revela

responsável pelo cuidado do outro, sem gerar violência. Quando se realiza uma

análise, percebe-se que onde há violência, há egoísmo. Até hoje, em minhas

reflexões pessoais, não encontrei um problema social ou individual cuja raiz não

fosse o egoísmo. Não é uma ideia nova, por exemplo, o conceito de ahimsa (अहिसा ं ),

oriundo do sânscrito, é um princípio ético-religioso presente na literatura clássica

hinduísta, como o Mahabharata e o Ramáiana, que consiste em não cometer

violência contra outros seres. A evidência mais antiga do termo é datada do século

VIII ou VII a.C., no sentido comum do hinduísmo, como um código de conduta, ao

proibir a violência contra "todas as criaturas" (sarvabhuta).


O pensamento levinasiano completa a ideia de bem-viver. Piaget (1932) discute a

experimentação da "obrigação superior e puramente imanente que constitui a

necessidade racional" do viver moral e ético. Tugendhat (1998) também contribui

para essa discussão ao abordar o vetor do desenvolvimento moral que leva ao ideal

de justiça pela equidade, à perspectiva da reciprocidade universal e ao imperativo

categórico kantiano, que preconiza que devemos sempre tratar a humanidade, em

nossa própria pessoa e na pessoa do outro, como um fim em si e não apenas como

meio.

A ética não deve sobrepor-se à moral. Para ser ético, é necessário não ser imoral,

pois a busca por uma vida boa implica a busca por uma vida com sentido. Uma vida

que faça sentido deve passar pela busca e manutenção de representações de si

com valor positivo, conforme afirmado por Blasi (1995), que argumenta que os

valores e as regras morais somente têm força motivacional se associados à

identidade. Portanto, para não ser imoral, é imprescindível viver a alteridade.

Se a filosofia de Lévinas contempla que não há relação quando se tem posse e

manipulação do objeto, Geni Papos, mulher guarani, doutora e psicóloga, ressalta

que, no pensamento decolonial indígena brasileiro, além do não-mono (não

monogamia, não monocultura, monoteísmo, etc.), há o atravessamento do tempo

em espiral. O tempo do homem branco é visto como um objeto de posse e

manipulação, linear e não circular. Assim, a relação se torna posse, e o tempo

também é posse. A criança, assim como o velho, está à margem. Portanto, a

sociedade não experimentará alteridade, enquanto não se racializar e descolonizar,

afinal, a instituição e a normativa faz a manutenção do controle dos corpos. A ética

está relacionada ao social, ao político, ao econômico, ao cultural e ao religioso.

Como menciona Lévinas, a relação ética não depende de uma ação que exija uma

consequência ou efeito posterior; ela é a unicidade e a subjetividade do outro.

Fernando Pessoa, em "A Tabacaria", escreveu: "Não tenho ambições nem desejos.

Ser poeta não é uma ambição minha." Essa citação lembrou-me à Verdadeira

Vontade, de Aleister Crowley, que trocava cartas com Pessoa e ensinava, com base

em seus estudos de filosofia e espiritualidade oriental, que a satisfação da vida do

homem reside na vontade livre de ambição e de resultados. Com Kant, Lévinas


afirma que a vida humana "significa que o outro não é apenas um objeto, um

instrumento, algo que poderíamos nos contentar em utilizar, mas que também é um

sujeito, um fim em si".

Emmanuel Lévinas critica os sistemas sociais que não reconhecem o outro de forma

holística. Contudo, como mencionado, há milhares de anos existem sistemas que

promovem a alteridade e tantas religiões e culturas que compõem essa ideia como

alicerce - inclusive Jesus sobre Amar a Todos. Assim, a responsabilidade é

efetivada antes mesmo de ser pensada, antes mesmo de ser consciência do sujeito.

Susin (1984, p. 408) comenta que o direito de viver se torna ilegítimo diante da fome

do outro.

Em conclusão, a análise da alteridade e da responsabilidade ética, à luz do

pensamento de Lévinas, revela a necessidade urgente de escutar e valorizar as

vozes silenciadas na sociedade, promovendo uma ética do cuidado que desafia a

cultura do egoísmo. As questões de racialização, controle de corpos e

decolonização se configuram como pilares essenciais nesse debate, exigindo uma

crítica profunda às estruturas de poder que perpetuam desigualdades históricas e

sociais. Alimentando práticas enraizadas no egoísmo, na posse, violência, na

propriedade privada e nas influências do cristianismo e do protestantismo. Portanto,

a construção de uma sociedade e espiritualidade mais justas não pode se limitar a

ações superficiais, mas deve envolver uma reavaliação crítica das narrativas e das

práticas que sustentam essas desigualdades. A vivência da alteridade é

acompanhada de uma responsabilidade ética que permeia todas as esferas da vida.

Referências


Andrei Zanon, (2019) O PRINCÍPIO DA ALTERIDADE DE LÉVINAS COMO

FUNDAMENTO PARA A RESPONSABILIDADE ÉTICA

KANT, E. (1994). Referido em relação ao dever moral e à autonomia.


DURKHEIM, E. (1974). Mencionado sobre o sentimento do sagrado e a moral

coletiva.


FREUD, S. (1991). Referido sobre a esfera do superego e a voz da consciência.


PIAGET, J. (1932). Citação sobre a obrigação moral e a necessidade racional.


LIPOVETSKY, G. (1992). Sobre a cultura do egoísmo.


TUGENDHAT, E. (1998). Discutido em relação à pluralidade das concepções morais

e ao imperativo categórico.


RICOEUR, P. (1990). Mencionado sobre a ética e a busca de uma vida realizada.


COMTE-SPONVILLE, A. & FERRY, L. (1998). Referido sobre a ética e a dificuldade

de resposta na sociedade atual.


BLASI, A. (1995). Citado em relação à motivação moral e identidade.


CROWLEY, A. Mencionado em relação ao conceito de liberdade e moralidade com

a citação de O Livro da Lei.


DUSSEL, E. (1995). Filosofia da Libertação: crítica à ideologia de libertação. São

Paulo: Paulus, (Coleção Pesquisa e Projetos).


GRZIBOWSKI, S. (2010). Transcendência e Ética. Um estudo a partir de Emmanuel

Lévinas. São Leopoldo: Oikos.


LÉVINAS, E. (1980). Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70.


LÉVINAS, E. (1993). Humanismo do outro homem. Petrópolis: Vozes.


LÉVINAS, E. (2002). De Deus que vem a ideia. Petrópolis: Vozes.

LÉVINAS, E. (2005). Entre nós. Ensaios sobre a alteridade. 2 ed. Petrópolis: Vozes.


MELO, N. V. (2003). A ética da alteridade em Emmanuel Lévinas. Porto Alegre:

EDIPUCRS.


OLIVEIRA, E. T. (2007). Centenário do Nascimento de Emmanuel Lévinas: Ética da

alteridade e o sentido do humano em Lévinas. Tabulae Revista de Filosofia. Curitiba:

Vicentina.


SUSIN, L. C. (1984). O homem messiânico. Uma introdução ao pensamento de

Emmanuel Lévinas. Porto Alegre: Vozes.



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