Sacerdotisa da bruxaria, pratica magia há 13 anos e se identifica com a filosofia perene - ideia de que a verdade é uma só, mas foi disseminada em cada cultura, tempo e localização de forma diferente atendendo as necessidades daquele momento, ou seja, todas as fés são válidas e têm algo a nos ensinar. Estuda as mais diversas religiões e filosofias, acrescentando aquilo que faz sentido à sua vida espiritual. A Helê acredita que estudando e praticando, algum dia chegará ao caminho natural do ser humano: a sabedoria.
O Princípio da Alteridade
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A vida começa com a comunicação; pois, no princípio, era o verbo, e existir é
comunicar. O filósofo francês LÉVINAS constroi uma tentativa de sair do ser,
rompendo com o círculo tradicional da filosofia clássica que não pensa e nem
concebe o outro enquanto relação. A alteridade não é entendida só pela minha
razão, ela acontece a partir do outro. A alteridade se configura como uma relação
ética do outro comigo, onde o “eu” assume a responsabilidade pelo cuidado do
outro, pelos seus rostos. Mas quem realmente não é ouvido? Quais são os rostos
que Lévinas menciona e que não são vistos? As mulheres, os refugiados e as
pessoas em situação de rua são exemplos de indivíduos que se tornam invisíveis. O
quanto eles existem? Eu os ouço? Eu os vejo?
‘’O Outro, ou o rosto do Outro, não é Deus, mas no rosto se manifesta Deus. O
outro se chama rosto, porque ele é uma presença vivant, porque ele desfaz a todo
instante a forma com que ele se oferece, porque ele é presente. (...). O rosto é
expressão por excelência. Seria como antes de abrir a boca, ou mesmo antes de
emitir um som, o rosto, (...) “formula a primeira palavra: o significante sugerindo a
ponte de seu signo, como os olhos que vão olhando”. O rosto, inegável proximidade
do Outro que propriamente fala e não me olha, mas de repente “me olha”
(Grzibowski, 2010, pp. 76-84).
Lipovetsky (1992) critica a cultura do egoísmo, que nos impõe a obrigação de nos
apegar apenas a nós mesmos. Para além dessa barreira, a ação ética se revela
responsável pelo cuidado do outro, sem gerar violência. Quando se realiza uma
análise, percebe-se que onde há violência, há egoísmo. Até hoje, em minhas
reflexões pessoais, não encontrei um problema social ou individual cuja raiz não
fosse o egoísmo. Não é uma ideia nova, por exemplo, o conceito de ahimsa (अहिसा ं ),
oriundo do sânscrito, é um princípio ético-religioso presente na literatura clássica
hinduísta, como o Mahabharata e o Ramáiana, que consiste em não cometer
violência contra outros seres. A evidência mais antiga do termo é datada do século
VIII ou VII a.C., no sentido comum do hinduísmo, como um código de conduta, ao
proibir a violência contra "todas as criaturas" (sarvabhuta).
O pensamento levinasiano completa a ideia de bem-viver. Piaget (1932) discute a
experimentação da "obrigação superior e puramente imanente que constitui a
necessidade racional" do viver moral e ético. Tugendhat (1998) também contribui
para essa discussão ao abordar o vetor do desenvolvimento moral que leva ao ideal
de justiça pela equidade, à perspectiva da reciprocidade universal e ao imperativo
categórico kantiano, que preconiza que devemos sempre tratar a humanidade, em
nossa própria pessoa e na pessoa do outro, como um fim em si e não apenas como
meio.
A ética não deve sobrepor-se à moral. Para ser ético, é necessário não ser imoral,
pois a busca por uma vida boa implica a busca por uma vida com sentido. Uma vida
que faça sentido deve passar pela busca e manutenção de representações de si
com valor positivo, conforme afirmado por Blasi (1995), que argumenta que os
valores e as regras morais somente têm força motivacional se associados à
identidade. Portanto, para não ser imoral, é imprescindível viver a alteridade.
Se a filosofia de Lévinas contempla que não há relação quando se tem posse e
manipulação do objeto, Geni Papos, mulher guarani, doutora e psicóloga, ressalta
que, no pensamento decolonial indígena brasileiro, além do não-mono (não
monogamia, não monocultura, monoteísmo, etc.), há o atravessamento do tempo
em espiral. O tempo do homem branco é visto como um objeto de posse e
manipulação, linear e não circular. Assim, a relação se torna posse, e o tempo
também é posse. A criança, assim como o velho, está à margem. Portanto, a
sociedade não experimentará alteridade, enquanto não se racializar e descolonizar,
afinal, a instituição e a normativa faz a manutenção do controle dos corpos. A ética
está relacionada ao social, ao político, ao econômico, ao cultural e ao religioso.
Como menciona Lévinas, a relação ética não depende de uma ação que exija uma
consequência ou efeito posterior; ela é a unicidade e a subjetividade do outro.
Fernando Pessoa, em "A Tabacaria", escreveu: "Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha." Essa citação lembrou-me à Verdadeira
Vontade, de Aleister Crowley, que trocava cartas com Pessoa e ensinava, com base
em seus estudos de filosofia e espiritualidade oriental, que a satisfação da vida do
homem reside na vontade livre de ambição e de resultados. Com Kant, Lévinas
afirma que a vida humana "significa que o outro não é apenas um objeto, um
instrumento, algo que poderíamos nos contentar em utilizar, mas que também é um
sujeito, um fim em si".
Emmanuel Lévinas critica os sistemas sociais que não reconhecem o outro de forma
holística. Contudo, como mencionado, há milhares de anos existem sistemas que
promovem a alteridade e tantas religiões e culturas que compõem essa ideia como
alicerce - inclusive Jesus sobre Amar a Todos. Assim, a responsabilidade é
efetivada antes mesmo de ser pensada, antes mesmo de ser consciência do sujeito.
Susin (1984, p. 408) comenta que o direito de viver se torna ilegítimo diante da fome
do outro.
Em conclusão, a análise da alteridade e da responsabilidade ética, à luz do
pensamento de Lévinas, revela a necessidade urgente de escutar e valorizar as
vozes silenciadas na sociedade, promovendo uma ética do cuidado que desafia a
cultura do egoísmo. As questões de racialização, controle de corpos e
decolonização se configuram como pilares essenciais nesse debate, exigindo uma
crítica profunda às estruturas de poder que perpetuam desigualdades históricas e
sociais. Alimentando práticas enraizadas no egoísmo, na posse, violência, na
propriedade privada e nas influências do cristianismo e do protestantismo. Portanto,
a construção de uma sociedade e espiritualidade mais justas não pode se limitar a
ações superficiais, mas deve envolver uma reavaliação crítica das narrativas e das
práticas que sustentam essas desigualdades. A vivência da alteridade é
acompanhada de uma responsabilidade ética que permeia todas as esferas da vida.
Referências
Andrei Zanon, (2019) O PRINCÍPIO DA ALTERIDADE DE LÉVINAS COMO
FUNDAMENTO PARA A RESPONSABILIDADE ÉTICA
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coletiva.
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LIPOVETSKY, G. (1992). Sobre a cultura do egoísmo.
TUGENDHAT, E. (1998). Discutido em relação à pluralidade das concepções morais
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SUSIN, L. C. (1984). O homem messiânico. Uma introdução ao pensamento de
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